Porque é que os nossos filhos nos tratam pior do que tratam os outros?
Poucas situações geram tanta culpa parental como esta.
Na escola dizem que o nosso filho é educado, respeitador e colaborante. Os avós elogiam o comportamento. Os professores não têm queixas.
Mas em casa parece outra criança.
Responde mal. Irrita-se facilmente. Chora por motivos aparentemente insignificantes. Explode com quem mais o ama.
E a pergunta surge quase inevitavelmente:
“Se ele consegue comportar-se assim com os outros, porque não consegue comigo?”
Muitos pais interpretam isto como um sinal de falha. Como se o comportamento difícil em casa fosse a prova de que estão a fazer algo errado.
Mas a psicologia do desenvolvimento sugere frequentemente uma explicação diferente.
As crianças passam grande parte do dia a adaptar-se ao mundo. Na escola precisam de seguir regras, controlar impulsos, lidar com exigências, gerir relações e tolerar frustrações. Tudo isto exige esforço emocional.
Quando regressam a casa, regressam também ao lugar onde se sentem mais seguras.
É precisamente por isso que muitas emoções que estiveram contidas durante o dia acabam por surgir junto dos pais.
Em psicologia, falamos frequentemente do conceito de base segura. Idealmente, os pais representam esse lugar de proteção emocional para onde a criança regressa quando está cansada, assustada, frustrada ou sobrecarregada.
E existe uma consequência curiosa nesta segurança: as crianças tendem a mostrar mais vulnerabilidade precisamente junto das pessoas em quem mais confiam.
Isto não significa que os pais devam aceitar qualquer comportamento nem que a falta de respeito seja saudável. Os limites continuam a ser fundamentais. Educar implica ajudar a criança a expressar aquilo que sente sem magoar os outros.
Mas existe uma diferença importante entre olhar para um comportamento difícil como um ataque pessoal ou vê-lo como uma manifestação de necessidades emocionais que a criança ainda não sabe gerir sozinha.
Muitas vezes, aquilo que parece ser uma explosão por causa de um brinquedo, de um banho ou de um simples “não”, tem pouco a ver com esse momento específico. É apenas o ponto onde o cansaço, a frustração e a sobrecarga do dia inteiro encontram finalmente espaço para aparecer.
Talvez por isso seja importante lembrar que o facto de uma criança mostrar o melhor de si aos outros não significa que esteja a guardar o pior para os pais.
Muitas vezes significa apenas que é em casa que se sente suficientemente segura para deixar cair a armadura.
E embora isso não torne os dias difíceis mais fáceis, pode ajudar a substituir alguma culpa por compreensão.
Porque nem sempre um comportamento difícil é um sinal de que a relação está a falhar.
Por vezes, é precisamente um sinal da segurança que existe dentro dela.
