Há frases que magoam mais quando vêm de quem mais amamos.
E poucas atingem os pais como esta.
“Não gosto de ti.”
Por vezes surge no meio de uma birra.
Outras vezes depois de um limite imposto ou de um simples “não”.
A criança grita, bate a porta e lança aquelas palavras que parecem atravessar tudo o que fazemos por ela.
Porque aquela frase toca num dos medos mais universais da parentalidade: o medo de falhar na relação com os filhos.
Mas o que significa realmente quando uma criança diz isto?
Na maioria das vezes, significa muito menos do que os adultos imaginam.
O cérebro emocional das crianças desenvolve-se muito antes das áreas responsáveis pelo autocontrolo e pela reflexão. Por isso, quando sentem algo com intensidade, vivem essa emoção como se fosse toda a realidade naquele momento.
Quando dizem “Não gosto de ti”, estão muitas vezes a dizer outra coisa:
“Estou zangado contigo.”
“Não sei lidar com o que estou a sentir.”
“Estou frustrado.”
Mas como ainda não têm as competências emocionais para expressar tudo isto, transformam uma emoção passageira numa afirmação absoluta. E os pais ouvem-na de forma literal.
Existe uma diferença importante entre sentir uma emoção e definir uma relação.
Os adultos conseguem perceber que podem amar alguém e estar zangados ao mesmo tempo. As crianças ainda estão a construir essa capacidade. Precisam de tempo para compreender que o amor não desaparece quando surge uma emoção difícil. Que uma discussão não destrói um vínculo. Que um limite não significa falta de amor.
Isto não significa ignorar o que é dito num momento de zanga. As crianças precisam de aprender formas mais saudáveis de comunicar o que sentem. Mas também não precisam que os adultos entrem em pânico sempre que ouvem estas palavras.
Porque uma relação saudável não se mede pela ausência de conflitos. Mede-se pela capacidade de os atravessar.
Por isso, da próxima vez que o seu filho disser “Não gosto de ti”, talvez a pergunta mais importante não seja se ele deixou realmente de gostar de si.
Talvez seja apenas:
“Que emoção estará ele a tentar expressar?”
Porque, na maioria das vezes, aquilo que parece rejeição é apenas uma emoção intensa à procura de uma forma de ser compreendida.
